Se você trabalha com QA em Portugal ou no Brasil, já deve ter se perguntado: será que as ferramentas que uso são as mesmas que o mercado pede lá fora? A resposta curta é: depende. A resposta longa é o que este artigo entrega.
Compilei dados do GitHub Octoverse 2025, Stack Overflow Developer Survey 2025, State of JS 2025, JetBrains Developer Ecosystem 2025, além de análise de vagas reais no ITJobs (Portugal) e Glassdoor (Brasil) para traçar um panorama honesto de onde cada tecnologia reina.
Panorama Global
O GitHub Octoverse 2025 marcou uma virada histórica: TypeScript tornou-se a linguagem #1 em número de contribuidores, ultrapassando Python e JavaScript pela primeira vez. Foram 2.6 milhões de contribuidores (+66% YoY), contra 2.6 milhões do Python (+48%) e 2.15 milhões do JavaScript (+24%).
No Stack Overflow 2025, JavaScript lidera com 66% de uso entre desenvolvedores, seguido por Python (+7 pontos percentuais em relação a 2024, impulsionado por IA e data science) e TypeScript (+2.5%).
Entre os frameworks de teste, o cenário é de migração acelerada:
| Framework | Downloads/semana | Satisfação (State of JS) | Retenção | Crescimento YoY |
|---|---|---|---|---|
| Playwright | 33M (npm) | 91% | 94% | +235% |
| Cypress | 6.7M (npm) | 72% | ~78% | ~+15% |
| Selenium | 2.1M (npm) | ~52% | ~52% | -8% (declínio) |
| Robot Framework | 1.1M (PyPI) | N/A (Python) | Alta (nicho fiel) | Estável |
| Vitest | ~12M (npm) | Líder em JS | Alta | +80% YoY |
Playwright alcançou a maior satisfação já registrada no State of JS, com 91% contra 72% do Cypress. A retenção de 94% significa que praticamente todos que experimentam Playwright continuam usando. Selenium, embora ainda presente em legados, perde terreno consistentemente. Robot Framework, sendo baseado em Python (PyPI), mantém 1.1 milhão de downloads semanais e cerca de 5% de market share no segmento de automação de testes, com adoção forte em empresas como Amazon, Microsoft, IBM e Samsung.
Portugal — Playwright e TypeScript dominam
Analisando as vagas ativas no ITJobs (33 vagas QA abertas em Junho de 2026), o perfil do QA em Portugal é claro:
- Linguagem #1: TypeScript / JavaScript — presente na maioria das ofertas de QA Automation
- Linguagem #2: Python — forte em automação de API e testes de dados
- Framework #1: Playwright — já é o mais pedido nas vagas, substituindo Selenium
- Framework #2: Cypress — ainda relevante, especialmente em front-end
- Framework #3: Selenium — aparece em vagas de manutenção de legados
- Robot Framework: presença nichada em consultorias enterprise (telecom, banca)
- API Testing: Supertest (NestJS), REST-assured (Java)
O mercado português é fortemente influenciado por consultorias (Imaginary Cloud, Neotalent, KCS IT, Devoteam) que atendem clientes europeus, o que explica a dominância do ecossistema TypeScript + Playwright. Empresas de produto em Portugal também estão a migrar ativamente de Selenium para Playwright.
Brasil — Java e Selenium ainda reinam
O cenário brasileiro é diferente. Analisando vagas no Glassdoor (205+ com Selenium, 28+ QA Automation ativas em Junho/2026):
- Linguagem #1: Java — ainda domina o mercado enterprise (bancos, seguradoras, varejo)
- Linguagem #2: JavaScript — forte em startups e produtos digitais
- Linguagem #3: Python — emergindo, especialmente em IA/ML e automação de dados
- Framework #1: Selenium — ainda a espinha dorsal da automação em empresas tradicionais
- Framework #2: Cypress — popular em empresas mais jovens e startups
- Framework #3: Playwright — crescendo rápido, mas ainda atrás do Selenium no BR
- Robot Framework: adoção notável — presente em bancos, fintechs e programas de RPA. A sintaxe em português (keywords traduzíveis) e a baixa barreira de entrada tornam-no especialmente popular em equipas brasileiras de acceptance testing. Diversos cursos e comunidades dedicadas no Brasil reforçam esta adoção.
- API Testing: REST-assured (Java) amplamente usado
A herança Java do mercado brasileiro (décadas de investimento em ecossistema Java EE / Spring) mantém o Selenium como framework dominante. No entanto, a migração para Playwright já começou — especialmente em empresas de tecnologia pura e startups. Robot Framework, por sua vez, encontrou um nicho sólido no Brasil, onde a comunidade é ativa e produziu dezenas de bibliotecas e conteúdos em português.
Comparativo Direto
| Aspecto | Portugal | Brasil | Mundo |
|---|---|---|---|
| Linguagem #1 | TypeScript/JavaScript | Java | TypeScript |
| Linguagem #2 | Python | JavaScript | Python |
| Browser #1 | Playwright | Selenium (dominante) | Playwright |
| Browser #2 | Cypress | Cypress | Cypress |
| Browser #3 | Selenium (legado) | Playwright (crescendo) | Selenium (declínio) |
| Keyword-driven / ATDD | Robot Framework (nicho) | Robot Framework (forte) | Robot Framework (~5% share) |
| Unit test (JS) | Vitest | Jest | Vitest |
| API Testing | Supertest (NestJS) | REST-assured (Java) | Playwright API + Supertest |
Tendências 2026-2027
- TypeScript como novo padrão — Até 2027, TypeScript deve ultrapassar JavaScript em uso geral. Para QA, significa que saber TypeScript será tão básico quanto saber SQL.
- Playwright como novo Selenium — Com 33M de downloads semanais e 94% de retenção, Playwright está a tornar-se o framework padrão para novos projetos. A Microsoft acelera isto com integração nativa com Azure e GitHub Actions.
- Robot Framework em ascensão no acceptance testing — Com a popularização do RPA e a necessidade de testes legíveis por não-programadores, o Robot Framework mantém-se relevante. A versão 7.4 (Março 2026) trouxe suporte nativo a Python 3.14 e melhorias na integração com CI/CD. A abordagem keyword-driven continua a ser a melhor opção para equipas que precisam de envolvimento do negócio na criação de testes.
- IA em testes — Self-healing, geração automática de casos de teste e agentes autónomos estão a mudar o papel do QA. Ferramentas que integram bem com IA (Playwright, Robot Framework) levam vantagem.
- Convergência de mercados — A diferença entre PT e BR está a diminuir. O crescimento do remoto internacional permite que QAs brasileiros trabalhem para empresas portuguesas e europeias, e vice-versa.
- Java a perder terreno no BR — Embora ainda dominante, a adopção de Python e TypeScript está a crescer no Brasil, especialmente em empresas nativas digitais e startups.
Conclusão
Não existe uma resposta única para "qual framework usar". O melhor conselho é: domine TypeScript + Playwright (é o que o mercado global mais pede), mas não ignore o ecossistema do seu país. Se está no Brasil, Java + Selenium ainda abrem portas — mas não aposte tudo nisso. Se está em Portugal, invista em TypeScript e Playwright. E independentemente de onde estiver, conhecer Robot Framework é um diferencial competitivo, especialmente em contextos enterprise e de acceptance testing.
O QA que entende o mercado onde atua — e sabe onde o mercado está a caminhar — é o que constrói carreira sólida.